segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Desnortes I & II

                                          

Desnortes por Tarsila do Amaral

                                   


                                     "Para quem ignora que porto procura, nenhum vento lhe é próprio." Séneca

 Estava em 2008 e publiquei este texto no meu blog. Trabalhava numa gráfica, simultaneamente estava a procurar um novo desafio

Desnortes (prosa de 2008)

A terra do desnorte.

Parece-me ser um pouco do que passa  neste nosso país. Vejo isso todos os dias, em clientes, em reuniões, em conversas que começam cheias de energia e acabam sem decisão nenhuma.

Lembro-me de um pequeno diálogo da Alice no País das Maravilhas:

  • Alice: Pode dizer-me, por favor, que caminho devo apanhar?
  • Gato: Depende de para onde quer ir.
  • Alice: Não me importa muito para onde…
  • Gato: Então não importa o caminho que escolha.

Parece que é assim que “desandamos”. Mas o pior é que alguns nem caminho querem já. Nem para si, nem que alguém lhes escolha um.

 

Desnortes com IA (versão de 2026)

A terra do desnorte tem já internet de alta velocidade.

Vejo isso todos os dias. Empresas e empresários falam da IA como se fosse uma varinha mágica, sem saber bem o que querem fazer com ela.

Pessoas que experimentam o ChatGPT uma vez, ficam impressionadas, e ficam por aí.

Gestores que pedem relatórios sobre "como implementar IA na empresa" sem terem ainda decidido o que a empresa quer ser.

Lembro-me sempre daquele diálogo entre a Alice e o Gato (que reproduzo acima).

O Gato tinha razão, claro. Se não sabes para onde queres ir, qualquer ferramenta te serve. E nenhuma te chega.

O problema com a IA já não é a tecnologia. A tecnologia já cá está cá e funciona. Já faz coisas que há dois anos pareciam ficção científica. O problema é que a maioria das pessoas e das organizações ainda está na fase da Alice: não importa muito para onde. Querem "fazer qualquer coisa com IA" sem saberem porquê, para quem, nem com que resultado.

E então andam. Experimentam ferramentas. Vão a webinars. Subscrevem newsletters. Assistem a demos. Aplaudem.

E ficam no mesmo sítio.

A IA não resolve o desnorte. Acelera-o.



Road to Nowhere" dos Talking Heads - A letra fala da viagem da vida. O "caminho para lado nenhum" não é necessariamente pessimista. Pelo contrário, Byrne parece sugerir que ninguém sabe exactamente para onde vai. A vida é incerta, e talvez o importante seja aceitar essa incerteza e continuar a caminhar.

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