quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Apito Muda de Tom para Quem Fica no Cais

Tarsila do Amaral e a estação de comboios 

"A impedimento à acção faz avançar a acção. O que está no caminho torna-se o caminho." Marco Aurélio

Há quem pense ainda que o sucesso  — profissional e pessoal — seja algo tão fácil, ou tão difícil, como apanhar um comboio em andamento.

Na minha pré-adolescência  (tinha 12 anos) subi várias vezes para o eléctrico 15 com este ainda em marcha. Ia ou vinha do Estádio Nacional, eu e a catraiada toda que tinha jogos de rugby por lá. Era uma aventura simples: esperar o momento certo e saltar. O eléctrico  não esperava por ninguém — mas também não andava assim tão depressa.

Fazíamos o mesmo no autocarro 21 ou 25. Só pelo prazer da aventura. Andávamos uma ou duas paragens e saíamos.  Claro, os pais não sabiam

Entro agora nas empresas do século passado. Estas  acreditavam numa fórmula semelhante. Compram-se máquinas, arranjam-se funcionários — e lá estava, fazendo o que os outros faziam, do mesmo modo, ao mesmo preço de venda (não necessariamente ao mesmo custo de produção).

A nível individual, um curso superior e o domínio razoável do inglês ou de outro idioma — sem ser o brasileirês, o espanholês ou qualquer outro desenrasca — eram o bilhete quase seguro  para subir a bordo de uma carreira pofissional.

Apesar das crises do petróleo de 1973, 1979 e 1991 sacudiram as nossas locomotivas. Mas lá recuperámos. O comboio voltava à sua velocidade de cruzeiro (vamos lá ver como esta crise se desenvolve)

Bem, isto tudo era no século passado.

Depois houve uma altura em que o nosso comboio — o europeu, o ocidental — parou. A ascensão da China foi, numa primeira fase, um estímulo: mão-de-obra barata, mercados novos, crescimento partilhado.

Mas a dependência foi crescendo sorrateiramente. Hoje pagamos o preço de ter terceirizado não apenas a produção, mas a resiliência.  Também parece que fomos deixando o espírito da  inovação para outros…vivíamos tempos de paz.

O comboio parou em 2001, com a Bolha da Internet. Parou de novo em 2008, quando o Lehman Brothers — o quarto maior banco de investimento norte-americano — abriu falência e arrastou consigo o modelo subprime que sustentava a ilusão de prosperidade de meio mundo. E tudo o( vento) mundo levou.

A ressaca não tardou a chegar à Europa sob a forma de crise da dívida soberana. Entre 2010 e 2015, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre viram-se encostados à parede, reféns da troika, da austeridade e de uma factura que não era inteiramente sua, mas que pagaram na íntegra — em empregos perdidos, serviços cortados e uma geração que cresceu a ouvir que não havia dinheiro. Portugal lá sobreviveu. Mas o comboio ficou parado na estação durante anos, com os passageiros a discutir sobre quem lhes tinha dado o bilhete para o comboio a vapor (como dizem os brasileiros, a Maria Fumaça)

E quando a Europa começava a recuperar algum fôlego, chegou o Brexit. Em Junho de 2016, o Reino Unido votou para sair da União Europeia — e abriu uma fissura "manchada" que ia muito além da geografia ou do comércio. Arrependidos? I guess so.

Foi um sinal de que a própria ideia de viagem colectiva estava em causa. Anos de negociações caóticas, três primeiros-ministros desgastados pelo processo, mercados em sobressalto permanente. Mas o comboio europeu não parou desta vez — mas perdeu uma das suas maiores carruagens pelo caminho…quase se pensou que descarrilaria.

Depois tivemos o COVID…uma experiência única,  inimaginável. Todos os comboios do mundo pararam ao mesmo tempo. A pandemia de Covid-19 não foi apenas uma crise de saúde pública — foi o momento em que a civilização inteira tocou nos travões. Fronteiras fechadas, economias congeladas, escritórios vazios. Mas o que o vírus também revelou, de forma brutal e acelerada, foi quem estava preparado para continuar a viagem por outros meios. As empresas e as pessoas que tinham investido no digital não pararam — mudaram de via. O teletrabalho, o ensino à distância, o comércio electrónico deixaram de ser alternativas e tornaram-se a norma. O Covid foi, paradoxalmente, o maior curso de transformação digital da história — obrigatório, sem inscrição prévia e com vários e distintos exames feitos diariamente.

Mas hoje — e este hoje começou algures a meio da década passada — vivemos uma verdadeira revolução ferroviária (aqui uma indirecta para a CP). O acesso ao conhecimento está à distância de um pulo de curiosidade. O capital para investimento existe, mas é apátrida. As plataformas que nos permitem aprender, em todas as geografias e muitas vezes sem sair de casa, colocam os carris do conhecimento perto de nós...é só entrar (sei que estou a ser oprimista).

Vale a pena recordar que o crowdfunding não é uma invenção da era digital: data de 1997, quando os Marillion, banda britânica de rock progressivo, financiaram a sua digressão americana com donativos dos próprios fãs. O modelo colaborativo que hoje damos por adquirido tem história. O Linux e a Wikipédia são dos seus monumentos mais visíveis.

O Apito Muda de Tom para Quem Fica no Cais

O efeito Doppler diz exactamente isso: o som sobe de frequência à medida que o comboio se aproxima, e baixa à medida que se afasta. Quem está dentro do comboio ouve sempre o mesmo tom. Quem fica no cais ouve a diferença.

Em breve volto ao Trem Bala que é a IA

Born to Run – Bruce Springsteen. A  Columbia Records tinha dado a Springsteen um ultimato — criar um single com potencial para as rádios, ou o contrato acabava. Bruce estava encostado à parede. Foi nesta pressão extrema, com a carreira literalmente em jogo, que nasceu Born to Run. Já não era um jovem talento a lançar-se ao mundo — foi um músico que já tinha falhado duas vezes, que sabia que era a última oportunidade, e que decidiu não fazer um disco seguro mas sim o disco mais ambicioso que conseguia imaginar. Seis meses só na faixa-título.

É uma história de aprendizagem permanente, de quem recusa desistir.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

Dia do pai

 Um texto a 4 mãos. As do meu pai, que já não anda por cá, e as minhas. Eu, que não sou pai.

Ser pai não é apenas uma questão de biologia, mas de presença, de entrega e de amor incondicional. É estar lá nos momentos de alegria e nos de desafio, nas pequenas vitórias do quotidiano e nas grandes decisões da vida. É dar a mão sem prender, ensinar sem impor, guiar sem sufocar.

O verdadeiro pai não é aquele que tem todas as respostas, mas aquele que está disposto a procurar, junto dos filhos, as melhores perguntas. É aquele que ensina que errar faz parte do caminho e que o carácter constrói-se, sobretudo, nos momentos difíceis.

Ser pai é também aprender enquanto se ensina. É redescobrir o mundo através dos olhos curiosos de uma criança, reencontrar a magia das pequenas coisas e perceber que o maior legado não está nos bens materiais, mas nos valores transmitidos e nos laços criados.

Ser pai acontece também nos dias em que nada corre bem. Nos dias em que a paciência se esgota e as palavras saem tortas e o cansaço fala mais alto do que o amor. Nesses dias, ser pai é resistir — não com heroísmo, mas com a humildade de quem sabe que amanhã será  diferente. É pedir desculpa. É voltar. É não desistir, mesmo quando tudo parece demasiado.

Neste Dia do Pai (e há mais 364 num ano) , celebremos aqueles que, com amor e dedicação, fazem da paternidade um verdadeiro acto de presença e compromisso. Porque ser pai é, acima de tudo, um privilégio — e uma missão de carinho e amor que nunca termina.

Seria algo parecido que ele escreveria. É o que me saiu em mais um dia de saudade.

Feliz Dia do Pai!

 

domingo, 15 de março de 2026

Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo

 

O Sabichão - JPM Consultores  

Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo

                               “Aprende com a experiência dos outros, pois não terás tempo suficiente para experimentar tudo por ti mesmo.", Gengis Khan

Quem foi criança em Portugal nos anos 60 e 70, que  foi o meu caso, conhece bem o Sabichão — era aquele boneco da Majora, de chapéu cónico e ar de feiticeiro, que girava sobre o tabuleiro e apontava sempre, infalivelmente, para a resposta certa.  Fosse sobre história, geografia ou ciências da natureza, o Sabichão sabia tudo.  Nunca hesitava. Nunca dizia que não sabia. Mas era um brinquedo. Hoje, curiosamente, o Sabichão tem vários descendentes bastardos. Eles apresentam-se pelos vários canais de informação portugueses – televisão, rádio, podcast (para dar um ar que sou moderno),  imprensa, sinais de fumo…

Mas vamos à televisão, aquele meio mais preguiçoso que temos. É quase certo que encontrará alguém a falar com uma autoridade Nobel(iana) sobre um tema que, até há três semanas, provavelmente nem sabia soletrar (desculpem o exagero, mas fica mais engraçado assim).

Na semana passada era especialista em geopolítica. Esta semana debruça-se sobre os mercados financeiros…de repente apareceram uns que também falam sobre a coroa britânica…já sobre a guerra do Irão ou Ucrânia, temos muitos entendidos

Em qualquer dos temas, apresentam sempre uma segurança imperturbável. Com ar de quem sabe — e sempre soube — tudo. De quem tinha nascido para isso. Está-lhe no sangue, no DNA e nas transfusões de uma qualquer LLM.

Portugal, como sabemos, tem um mercado televisivo pequeno, com poucos canais. Estes competem vorazmente pelas audiências e receitas. Este facto criou um ecossistema em que o mesmo conjunto restrito de rostos roda entre a SIC Notícias, a CNN Portugal, CM e a TVI 24 como se fossem as únicas pessoas no país capazes de ter uma opinião.

 A lógica até é compreensível: precisam de alguém, sempre disponível, com mundo (supostamente), bem falante (nem sempre),  que preencha (o que eu quero mesmo dizer é encha) os espaços de antena e sem grandes custos. O comentador polivalente resolve esse problema. E raramente diz que não sabe.

Essa última parte é a mais reveladora. Numa cultura (a nossa, incluindo a televisiva), que pune a hesitação e recompensa a convicção, admitir desconhecimento equivale a suicídio profissional, a um despedimento, a uma falta de tacho…

Por isso, opina-se. Opina-se sempre. Sempre sobre tudo. Portugal tem economistas sérios, juristas rigorosos, investigadores com décadas de experiência que raramente aparecem em televisão — porque não são suficientemente telegénicos, porque recusam simplificar o que não pode ser simplificado e serem entrevistados por pivôs mal preparados, tendenciosos,….. Entretanto, o comentador polivalente está lá, com uma frase pronta. A agradar a alguns, a ser indiferente para muitos.

O custo não é apenas a qualidade televisiva. O mais importante é que se trata de um custo cívico em que os resultados prejudiciais perduram e multiplicam-se. As ditas fake news…

Uma opinião instantânea distorce a realidade, cria ilusões de compreensão,  empobrece o debate, diminui a democracia e consolida os extremismos.

Quando temas complexos como a reforma do SNS, a crise da habitação ou az Guerras na Ucrânia ou a do Irão, fazemos com que estes casos sejam reduzidos a debates entre dois comentadores que dominam o assunto ao nível de uma leitura rápida de manchetes e uma conta paga no ChatGTP. O espectador fica assim com a sensação de ter percebido algo que, na verdade, não percebeu … talvez porque a abordagem usada não tenha seja a mais correcta.

Não quero também deixar de referir que certos especialistas que parecem estar sempre do lado errado da história. Com este ponto de vista, o meu, não quero fechar a media a outras opiniões…longe disso. Mas o facto de uns poucos, verdadeiros outliers da sociedade,  terem sempre um canal aberto para afirmarem sempre o mesmo, do  mesmo modo , com os argumentos de sempre,…e a maioria diz ou pensa o contrário.

O problema não vive apenas nos estúdios de televisão. Reconhecemo-lo bem no mundo do trabalho. Em quase todas as organizações existe aquela figura familiar: o colega — ou o chefe — que tem sempre uma opinião formada sobre tudo (saravá  Raúl Seixas), seja sobre a estratégia da empresa, o sistema de RH, a campanha de marketing ou o novo software de contabilidade. Intervém em todas as reuniões, domina todos os dossiês, nunca hesita. A sua presença é constante; a sua utilidade, bem mais discutível.

Este perfil “sui generis” é particularmente perigoso em posições de liderança, porque cada intervenção tem peso e pode orientar — mas também distorcer — o trabalho e a estratégia de equipas inteiras.

Quem sente que o seu superior vai sempre ter uma opinião formada sobre o seu trabalho aprende, rapidamente, a gerir expectativas em vez de procurar a melhor solução. O resultado é uma cultura de aparências, onde o que importa não é fazer bem, mas parecer bem aos olhos de quem opina sobre tudo.

Um dado curioso é que muitos destes 'especialistas' constroem a sua reputação não sobre o que sabem, mas sobre como parecem saber. Absorvem manchetes, reciclam análises alheias e, com o dom da oratória — e uma expressão facial devidamente grave —, transformam a reprodução em originalidade. É uma forma de prestidigitação intelectual: o truque não está no conteúdo, está na entrega. E o público, muitas vezes, aplaude o ilusionista sem reparar que não havia nenhum coelho na cartola."

Importa reforçar que ao ouvir estes especialistas a expor as suas ideias, somos todos nós que ouvimos, somos todos nós que podemos ser influenciados.  Estes especialistas têm palco livre nas televisões, a qualquer hora do dia. E, muitas vezes, são acompanhados pelos dignos pivôs das televisões.

Wittgenstein escreveu: “sobre aquilo que não se pode (ou sabe)  falar, calemo-nos.”

É, talvez, uma máxima que os media portugueses parecem desconhecer por completo. Talvez o melhor comentário que um comentador poderia fazer, ao vivo, em horário nobre, fosse este: «Sobre isto, não sei. Perguntem a alguém que saiba.»

Seria, provavelmente, o momento mais honesto — e mais útil — da história dos media portugueses.

 

Raúl Seixas – Metamorfose Ambulante , Raul Seixas foi uma figura absolutamente central no rock brasileiro. Não foi apenas um cantor de rock — foi quem ajudou a dar identidade brasileira ao género. Antes dele, muito do rock no Brasil era basicamente imitação do que vinha dos EUA ou do Reino Unido.

 

Texto inspirado no desconforto que os media e políticos portugueses transmitem à sua audiência e ao povo


#Liderança #CulturaOrganizacional #GestãodeEquipas #SoftSkills #fakenews #media

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O tal rapaz do Benfica

O tal rapaz do Benfica

O tal rapaz do Benfica

Gianluca Prestianni, 20 anos, argentino, jogador do Benfica, protagonizou o momento mais comentado da Champions League esta semana — e fê-lo com a camisola tapando a boca. Como quem não quer ser lido nos lábios. Toda a gente reparou na mesma.

Vinicius Jr. marcou, celebrou (muito), e Prestianni foi ter com ele dizer… alguma coisa. O que disse? Isso ainda ninguém sabe.

Segundo Vinicius, foi "macaco". Segundo Mbappé, que estava longe mas ouviu tudo na mesma, também foi "macaco". Segundo outros, também foi ofensiva.

Mas não pode ter sido uma palavra homofónica? O que toda a gente concorda é que não foi um elogio ou um convite para jogar matraquilhos. Mas elogios entre brasileiros e argentinos, no futebol… só na missa...e do 7 dia. Mas isto são lá coisas deles

Os comentadores portugueses, quase todos, com a velocidade habitual, já o condenaram.

O único problema é que, até hoje, ninguém sabe ao certo o que ele disse. Mas as opiniões são firmes, condenatórias, e chegaram antes dos factos.

O estranho, nisto tudo, é que ninguém defende as mães dos árbitros. Ninguém condena as cenas das claques, das direcções, dos próprios jogadores. Coloquem o mesmo vigor na defesa do futebol — esse sim, maltratado todos os fins de semana.

Um clássico.

Faz alguns anos ia acompanhar os miúdos que eu treinava. Era rugby. Também haviam pais por lá. Uns eram maçadores…queriam que os filhos jogassem mais. Enfim, opções…que tinham a ver com opções dos treinos  da semana . Quase pareço o Mister Mourinho.

Na minha ida para o campo do rugby passava, algumas vezes, pelo campo da bola dos miúdos. Mais pais, sem dúvida. Talvez não tantos miúdos. Muito mais barulho, sem dúvida.  Barulho que eu gostava que os meus filhos, se os tivesse, não ouvissem.

João N. Marques / Sócio do Sporting N.º 1.301-0



terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Quando uma lufada se torna uma bufada azul

 

Toalhas de rosto Sporting 



Quando uma lufada se torna uma bufada azul

 

O FC Porto sob a liderança de André Villas-Boas, que prometia ser uma "lufada de ar fresco", parece ter-se revelado, na verdade, uma "bufada azul e branca" de boas e respeitosas práticas


A nova estrutura parece ter investido num curso intensivo de design de interiores e gestão de inventário: primeiro, ao decorar o balneário de visitantes com capas de jornais sobre derrotas do Sporting e as muitas vitórias do seu clube. Uma verdadeira lição de  "hospitalidade" à moda do FC Porto…bem diferente do que é à moda do Porto.

A criatividade estendeu-se ao relvado com o surgimento de um "serviço de limpeza" inesperado. Os apanha-bolas do clube, em plena "missão" dada pela estrutura, decidiram roubar as toalhas de Rui Silva e as bolas e os respectivos cones. A táctica do macaco queque da Avenida da Boavista passou por esconder as bolas do jogo , poupando-os do sue trabalho, jogar à bola.

Parece que a hospitalidade também passou pelo novo sistema de aquecimento dos balneários.

Na véspera, a emoção era tanta para receber a equipa do Sporting, que fizeram fogo de artifício.

Mas o jogo táctico do Porto de Vilas Boas não começou aqui. Já em Novembro tivemos o caso da televisão.  A cabine do árbitro Fábio Veríssimo passava em repeat imagens do  golo anulado ao FC Porto e de outras eventuais  más decisões do árbitro (e o comando tinha desaparecido)

Entretanto, o queque da Boavista, o  Andrezito entretém-se a diagnosticar como terroristas desportivos todos aqueles que na comunicação social que não usam "óculos azuis" –  acrescento  que o clube vai colecionando multas  por comportamentos reincidentes de lesão da honra contra a arbitragem.

O Porto de Villas-Boas mostra que, embora as caras mudem, o "combustível" para a polémica, jogo sujo e antijogo continua a ser o prato principal da casa.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Solidariedade a Metro


 


Solidariedade a Metro

Enquanto a água ainda escorre pelas paredes e a lama cobre o que restou, há quem já tenha a calculadora na mão.

Vizinhos de uma vida inteira transformam-se em prestadores de serviços premium. "Ajudar-te a limpar a cave? São 50 euros a hora, mais IVA." A bomba de água que estava encostada na garagem de repente tem tarifa de emergência. A carrinha que emprestavam por um favor agora cobra por quilómetro.

E depois há os outros — os verdadeiros artistas da oportunidade. Enquanto fingem solidariedade, medem com o olho o que a enchente arrastou mas ainda tem valor. Misturam-se com os bombeiros, passando-se por eles, e roubam. Roubam eletrodomésticos, móveis recuperáveis, aquelas ferramentas que ficaram no alpendre. Tudo desaparece antes do dono ter tempo de secar as mãos e fazer contas ao prejuízo.

A tempestade Christine passou. Mas há parasitas que ficam — não para estender a mão, mas para a enfiar no bolso alheio.

Há desgraças que revelam o melhor das pessoas. E há pessoas que transformam qualquer desgraça no seu melhor negócio.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A tragédia como palco

A tragédia como palco - JPM Consultores  
 

A tragédia como palco

Para muitos políticos, uma tragédia não é uma urgência humana — é uma janela mediática. Chegam de colete, mangas arregaçadas, ar compungido, rodeados de câmaras. Não vão resolver nada. Vão construir narrativa. A miséria transforma-se em cenário; as vítimas, em figurantes.

Há uma diferença clara — e moralmente inegociável — entre ajudar e explorar.

Ajudar de verdade é:

  • fazer doações anónimas,

  • praticar voluntariado discreto,

  • apoiar causas sem esperar holofotes,

  • contribuir de forma consistente, não apenas quando há câmaras.


Usar a desgraça alheia é:

  • aparecer em tragédias com fotógrafos atrás,

  • anunciar doações nas redes sociais como troféus,

  • transformar sofrimento humano em marketing político ou pessoal,

  • só agir quando há visibilidade.

O problema não é a visibilidade em si. Em alguns casos, divulgar pode mobilizar mais ajuda.

O problema começa quando:

  • a motivação principal é a autopromoção;

  • o valor da publicidade supera largamente o valor da ajuda;

  • a “ajuda” é superficial, simbólica ou encenada;

  • o sofrimento alheio é instrumentalizado.


Quando isto acontece, deixa de ser solidariedade. Passa a ser cinismo.

Há um critério simples que nunca falha: quem ajuda apenas quando está a ser visto, não está a ajudar — está a representar.

O carácter, na política como na vida, revela-se sempre no mesmo sítio: no que se faz quando ninguém está a olhar.


Lamentável e baixa a atitude de André Ventura