sexta-feira, 8 de maio de 2026

Como trabalhar e estimular o seu riso

 Como trabalhar e estimular o seu riso

 

Sorrir por Tarsila do Amaral  - JPM Consultores 

May the smile be with you." (from a kind of The Smiling Star Wars, possível frase de  Han Solo)

 

Comecem a ler com um sorriso. Acho que vai valer a pena.

Eventualmente a primeira pessoa a quem sorrimos foi a nossa mãe.  Não sorrimos com os dentes todos, mas sorrimos com a confiança e o coração todo. E sempre levámos um sorriso delas.

Depois fomos sorrindo a uns e a outros (deixa-me colocar o pai) e aos os que apareciam lá em casa. Mais tarde íamos rindo com os filmes do Mr. Hulot, dos Irmãos Marx, do Louis de Funès, do Jerry Lewis e mais uns poucos (os filmes davam na TV ou íamos a alguns cinemas já desaparecidos: Alvalade, Roma, Caleidoscópio, Apolo 70… ). Também ríamos uns dos outros. Ríamos na rua; ríamos no caminho para a escola; ríamos a jogar à bola, a jogar às escondidas, etc., etc.

Mais tarde deixámos de rir tanto. E isso faz falta a muitos. Há pessoas próximas que talvez não tenhamos visto alguma vez a rir — ou de quem não guardamos essa memória.

Porque faz falta a muitos, inclusive a mim. Também porque falar mal é sempre mais fácil do que falar bem (vejam-se as redes sociais). Não rimos porque não correm bons tempos. Mas é precisamente por isso: temos de agarrar as coisas boas — e elas "andam" por aí. Basta estar atento ou procurá-las.

Por tudo isto, e por muito mais, resolvi adaptar livremente uma parte de um artigo do El País, intitulado "Frente a la ansiedad, risas" — uma chamada tradução de autor, portanto: copiada, traduzida, ajustada e acrescentada. O artigo não está "achável" na www, mas as dicas que propõe, essas, estão aqui:

  1. Rodeia-te de gente divertida, que contagie pelo optimismo e tenham ganas — gosto deste ganas  (os espanhóis, de vez em quando, estão bem) — de viver. Falar constantemente de problemas, e só deles, não é solução. Para os outros e, principalmente, para os próprios.
  2. Desinibe-te e deixa-te levar pelas coisas boas. Não tenhas medo nem vergonha de rir às gargalhadas.
  3. Procura "material" divertido: livros, séries, textos, o que for. Há muita coisa por aí. Se não te lembrares de nada, começa pelos Monty Python (eu sou fã).
  4. Delicia-te com as lembranças positivas da tua vida. Recorda a tua última gargalhada. Verás que te vais sentir melhor.
  5. Contempla-te a ti e aos teus problemas através de uma lente de humor e de optimismo. Serão esses problemas tão importantes e relevantes? Amanhã ainda o serão? Talvez não.
  6. Observa as situações pelos olhos de um optimista. Quando só se fala de crise e os dias de sol prometem ser mais curtos e menos prováveis — foge do pessimismo, do mau humor, e ri. Ri muito.

Descobre o palhaço que há em ti. Afinal, rir é um bom remédio, custa bola e é contagiante.

Entrando na arte da filosofia: o riso consegue ser uma possível resposta adaptativa. É  muito mais saudável do que a indignação crónica que por aí prolifera. A indignação cansa, envelhece-nos e afasta-nos dos alegres e tem como resultado, em regra, não resolver nada.

Já o riso, pelo menos, deve deixar-nos em paz connosco e com uma boa parte dos outros.

 

PS: Sabedoria popular para uma boa higiene mental condensada numa frase: divertimento garantido é ouvir certos políticos e pessoal ligado ao desporto. ...sendo mais correcto, antes isso do que chora.

 

Happy — Pharrell Williams

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Foi o Tintim que foi à Lua pela primeira vez




Os livros são um prazer para muitos. São, também, um instrumento para disseminar conhecimento, de ocupar os tempos livres, etc, etc, etc

Não sou um leitor voraz; tenho, todavia, condições para o ser. Terei de ser mais disciplinado. Já fui mais, bem mais... lia bem mais

Este dia mundial do livro fez-me lembrar uma história de criança. Devia ter uns 9 anos….faz o seu tempo.

Ele envolve o Dr. Baptista da Silva, antigo director do Observatório de Lisboa, o meu pai e Neil Armstrong (esse mesmo, o que todos conhecem). É passada no Observatório. Ambos eram Astrónomos. O Neil, todos sabe quem ele é

Estava o Dr. Baptista da Silva, quase um avô para mim, e o meu pai. Falavam da ida à Lua. Tema obrigatório para astrónomos. Falavam, falavam…e, eu, incomodado com tamanho equívoco....na altura diria disparate.

Vou a correr a casa — morávamos no campus do Observatório — e pego no livro do Hergé, Tintim foi à Lua (da década de 50). Regresso à escadaria onde se desenrolava a conversa. Peço licença para falar, e mostro-lhes o Tintim e digo qualquer coisa como: Não foi nada esse o Armstrong…quem foi o primeiro a chegar lá foi o Tintim.

Não me recordo da resposta de ambos. Provavelmente os dois seguraram o sorriso para não estragar a minha certeza. Quase possa firmar que há uma beleza nesta certeza, certeza que os adultos já perderam e não a voltam a ter.

PS: Óbvias saudades de ambos e da Lassie do Dr Baptista. Passeávamos, muitas vezes, os 3 pelo Observatório.


domingo, 12 de abril de 2026

Breaking News - Uma boa notícia para o planeta: Trump vai viver para Marte

Trump para o espaço
Trump para o espaço - JPM Consultores



 Breaking News - Uma boa notícia para o planeta: Trump vai viver para Marte

“A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizerem dela.” – Marco Aurélio
Depois de anos a tweetar tarifas, a insultar aliados e a fazer do ciclo noticioso um desporto de combate, chegou finalmente o verdadeiro e secretíssimo desígnio de Trump: colonizar Marte.
Trump diz: "Ninguém conhece Marte melhor do que eu. Aliás, basicamente, fui eu que o descobri." A sala oval aplaude, os Magas rejubilam
O foguetão partirá em breve. Elon vai cobrar um preço simbólico…apenas para pagar os pneus.
Fontes próximas da família confirmam que já foi contratada uma empresa de mudanças para começar a esvaziar Mar-a-Lago. Os tapetes e os sanitários dourados vão primeiro. Depois os retratos. Depois mais retratos. Depois ainda mais retratos. Calcula-se que os retratos, sozinhos, ocupem três viagens. A cabeleireira foi incluída no manifesto de carga.
"É uma mudança complexa," admitiu o responsável da empresa, visivelmente perturbado. "Nunca tínhamos mudado um ego desta dimensão."
E a Terra — azul, redonda, exausta — fechou os olhos, respirou fundo, e sorriu pela primeira vez em anos. Ficou aliviada
Os pássaros vão voltar a cantar. Prevê-se que as redes sociais baixem a sua actividade. Os jornalistas vão dormir melhor.
Note: Em Marte não há eleições, não há imprensa, não há tratados comerciais para rasgar. Há apenas vento vermelho, silêncio, e uma bandeira com o nome dele em letras douradas a afundar lentamente na areia.
Que descanse em Marte. A Terra despede-se com uma enorme alegria e um profundo sentimento de alívio.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Ter um carro autónomo ou saber conduzir

Ter um carro autónomo ou saber conduzir ´


Ter um carro autónomo ou saber conduzir  // JPM Consultores




Durante anos, o trabalhador sénior, o que eu já sou, tinha um superpoder: sabia coisas e, em muitos casos, aplicava-as. Não porque fosse especialmente brilhante, mas porque já tinha cometido (quase – há sempre espaço para mais ) todos os erros possíveis e sobrevivido para contar ou reformular a história. 

Chegou a IA e, de repente, um qualquer estagiário com um bom prompt consegue parecer que sabe o mesmo — sem ter sofrido nada. Democratizou-se o conhecimento, mas não a cicatriz. O problema é que agora toda a gente acha que está pronta para tudo, quando na verdade a maioria está apenas bem assistida. É a diferença entre ter um carro autónomo e saber conduzir. No fundo, a IA não colocou todos na casa de partida — deslocou a linha de partida.

 Há por aí muitos que pensam que ganharam a corrida quando ainda estão a tentar apertar os atacadores. 

Para mim é, sem dúvida, um meio de ficar activo.



quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Apito Muda de Tom para Quem Fica no Cais

Tarsila do Amaral e a estação de comboios 

"A impedimento à acção faz avançar a acção. O que está no caminho torna-se o caminho." Marco Aurélio

Há quem pense ainda que o sucesso  — profissional e pessoal — seja algo tão fácil, ou tão difícil, como apanhar um comboio em andamento.

Na minha pré-adolescência  (tinha 12 anos) subi várias vezes para o eléctrico 15 com este ainda em marcha. Ia ou vinha do Estádio Nacional, eu e a catraiada toda que tinha jogos de rugby por lá. Era uma aventura simples: esperar o momento certo e saltar. O eléctrico  não esperava por ninguém — mas também não andava assim tão depressa.

Fazíamos o mesmo no autocarro 21 ou 25. Só pelo prazer da aventura. Andávamos uma ou duas paragens e saíamos.  Claro, os pais não sabiam

Entro agora nas empresas do século passado. Estas  acreditavam numa fórmula semelhante. Compram-se máquinas, arranjam-se funcionários — e lá estava, fazendo o que os outros faziam, do mesmo modo, ao mesmo preço de venda (não necessariamente ao mesmo custo de produção).

A nível individual, um curso superior e o domínio razoável do inglês ou de outro idioma — sem ser o brasileirês, o espanholês ou qualquer outro desenrasca — eram o bilhete quase seguro  para subir a bordo de uma carreira pofissional.

Apesar das crises do petróleo de 1973, 1979 e 1991 sacudiram as nossas locomotivas. Mas lá recuperámos. O comboio voltava à sua velocidade de cruzeiro (vamos lá ver como esta crise se desenvolve)

Bem, isto tudo era no século passado.

Depois houve uma altura em que o nosso comboio — o europeu, o ocidental — parou. A ascensão da China foi, numa primeira fase, um estímulo: mão-de-obra barata, mercados novos, crescimento partilhado.

Mas a dependência foi crescendo sorrateiramente. Hoje pagamos o preço de ter terceirizado não apenas a produção, mas a resiliência.  Também parece que fomos deixando o espírito da  inovação para outros…vivíamos tempos de paz.

O comboio parou em 2001, com a Bolha da Internet. Parou de novo em 2008, quando o Lehman Brothers — o quarto maior banco de investimento norte-americano — abriu falência e arrastou consigo o modelo subprime que sustentava a ilusão de prosperidade de meio mundo. E tudo o( vento) mundo levou.

A ressaca não tardou a chegar à Europa sob a forma de crise da dívida soberana. Entre 2010 e 2015, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre viram-se encostados à parede, reféns da troika, da austeridade e de uma factura que não era inteiramente sua, mas que pagaram na íntegra — em empregos perdidos, serviços cortados e uma geração que cresceu a ouvir que não havia dinheiro. Portugal lá sobreviveu. Mas o comboio ficou parado na estação durante anos, com os passageiros a discutir sobre quem lhes tinha dado o bilhete para o comboio a vapor (como dizem os brasileiros, a Maria Fumaça)

E quando a Europa começava a recuperar algum fôlego, chegou o Brexit. Em Junho de 2016, o Reino Unido votou para sair da União Europeia — e abriu uma fissura "manchada" que ia muito além da geografia ou do comércio. Arrependidos? I guess so.

Foi um sinal de que a própria ideia de viagem colectiva estava em causa. Anos de negociações caóticas, três primeiros-ministros desgastados pelo processo, mercados em sobressalto permanente. Mas o comboio europeu não parou desta vez — mas perdeu uma das suas maiores carruagens pelo caminho…quase se pensou que descarrilaria.

Depois tivemos o COVID…uma experiência única,  inimaginável. Todos os comboios do mundo pararam ao mesmo tempo. A pandemia de Covid-19 não foi apenas uma crise de saúde pública — foi o momento em que a civilização inteira tocou nos travões. Fronteiras fechadas, economias congeladas, escritórios vazios. Mas o que o vírus também revelou, de forma brutal e acelerada, foi quem estava preparado para continuar a viagem por outros meios. As empresas e as pessoas que tinham investido no digital não pararam — mudaram de via. O teletrabalho, o ensino à distância, o comércio electrónico deixaram de ser alternativas e tornaram-se a norma. O Covid foi, paradoxalmente, o maior curso de transformação digital da história — obrigatório, sem inscrição prévia e com vários e distintos exames feitos diariamente.

Mas hoje — e este hoje começou algures a meio da década passada — vivemos uma verdadeira revolução ferroviária (aqui uma indirecta para a CP). O acesso ao conhecimento está à distância de um pulo de curiosidade. O capital para investimento existe, mas é apátrida. As plataformas que nos permitem aprender, em todas as geografias e muitas vezes sem sair de casa, colocam os carris do conhecimento perto de nós...é só entrar (sei que estou a ser oprimista).

Vale a pena recordar que o crowdfunding não é uma invenção da era digital: data de 1997, quando os Marillion, banda britânica de rock progressivo, financiaram a sua digressão americana com donativos dos próprios fãs. O modelo colaborativo que hoje damos por adquirido tem história. O Linux e a Wikipédia são dos seus monumentos mais visíveis.

O Apito Muda de Tom para Quem Fica no Cais

O efeito Doppler diz exactamente isso: o som sobe de frequência à medida que o comboio se aproxima, e baixa à medida que se afasta. Quem está dentro do comboio ouve sempre o mesmo tom. Quem fica no cais ouve a diferença.

Em breve volto ao Trem Bala que é a IA

Born to Run – Bruce Springsteen. A  Columbia Records tinha dado a Springsteen um ultimato — criar um single com potencial para as rádios, ou o contrato acabava. Bruce estava encostado à parede. Foi nesta pressão extrema, com a carreira literalmente em jogo, que nasceu Born to Run. Já não era um jovem talento a lançar-se ao mundo — foi um músico que já tinha falhado duas vezes, que sabia que era a última oportunidade, e que decidiu não fazer um disco seguro mas sim o disco mais ambicioso que conseguia imaginar. Seis meses só na faixa-título.

É uma história de aprendizagem permanente, de quem recusa desistir.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

Dia do pai

 Um texto a 4 mãos. As do meu pai, que já não anda por cá, e as minhas. Eu, que não sou pai.

Ser pai não é apenas uma questão de biologia, mas de presença, de entrega e de amor incondicional. É estar lá nos momentos de alegria e nos de desafio, nas pequenas vitórias do quotidiano e nas grandes decisões da vida. É dar a mão sem prender, ensinar sem impor, guiar sem sufocar.

O verdadeiro pai não é aquele que tem todas as respostas, mas aquele que está disposto a procurar, junto dos filhos, as melhores perguntas. É aquele que ensina que errar faz parte do caminho e que o carácter constrói-se, sobretudo, nos momentos difíceis.

Ser pai é também aprender enquanto se ensina. É redescobrir o mundo através dos olhos curiosos de uma criança, reencontrar a magia das pequenas coisas e perceber que o maior legado não está nos bens materiais, mas nos valores transmitidos e nos laços criados.

Ser pai acontece também nos dias em que nada corre bem. Nos dias em que a paciência se esgota e as palavras saem tortas e o cansaço fala mais alto do que o amor. Nesses dias, ser pai é resistir — não com heroísmo, mas com a humildade de quem sabe que amanhã será  diferente. É pedir desculpa. É voltar. É não desistir, mesmo quando tudo parece demasiado.

Neste Dia do Pai (e há mais 364 num ano) , celebremos aqueles que, com amor e dedicação, fazem da paternidade um verdadeiro acto de presença e compromisso. Porque ser pai é, acima de tudo, um privilégio — e uma missão de carinho e amor que nunca termina.

Seria algo parecido que ele escreveria. É o que me saiu em mais um dia de saudade.

Feliz Dia do Pai!

 

domingo, 15 de março de 2026

Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo

 

O Sabichão - JPM Consultores  

Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo

                               “Aprende com a experiência dos outros, pois não terás tempo suficiente para experimentar tudo por ti mesmo.", Gengis Khan

Quem foi criança em Portugal nos anos 60 e 70, que  foi o meu caso, conhece bem o Sabichão — era aquele boneco da Majora, de chapéu cónico e ar de feiticeiro, que girava sobre o tabuleiro e apontava sempre, infalivelmente, para a resposta certa.  Fosse sobre história, geografia ou ciências da natureza, o Sabichão sabia tudo.  Nunca hesitava. Nunca dizia que não sabia. Mas era um brinquedo. Hoje, curiosamente, o Sabichão tem vários descendentes bastardos. Eles apresentam-se pelos vários canais de informação portugueses – televisão, rádio, podcast (para dar um ar que sou moderno),  imprensa, sinais de fumo…

Mas vamos à televisão, aquele meio mais preguiçoso que temos. É quase certo que encontrará alguém a falar com uma autoridade Nobel(iana) sobre um tema que, até há três semanas, provavelmente nem sabia soletrar (desculpem o exagero, mas fica mais engraçado assim).

Na semana passada era especialista em geopolítica. Esta semana debruça-se sobre os mercados financeiros…de repente apareceram uns que também falam sobre a coroa britânica…já sobre a guerra do Irão ou Ucrânia, temos muitos entendidos

Em qualquer dos temas, apresentam sempre uma segurança imperturbável. Com ar de quem sabe — e sempre soube — tudo. De quem tinha nascido para isso. Está-lhe no sangue, no DNA e nas transfusões de uma qualquer LLM.

Portugal, como sabemos, tem um mercado televisivo pequeno, com poucos canais. Estes competem vorazmente pelas audiências e receitas. Este facto criou um ecossistema em que o mesmo conjunto restrito de rostos roda entre a SIC Notícias, a CNN Portugal, CM e a TVI 24 como se fossem as únicas pessoas no país capazes de ter uma opinião.

 A lógica até é compreensível: precisam de alguém, sempre disponível, com mundo (supostamente), bem falante (nem sempre),  que preencha (o que eu quero mesmo dizer é encha) os espaços de antena e sem grandes custos. O comentador polivalente resolve esse problema. E raramente diz que não sabe.

Essa última parte é a mais reveladora. Numa cultura (a nossa, incluindo a televisiva), que pune a hesitação e recompensa a convicção, admitir desconhecimento equivale a suicídio profissional, a um despedimento, a uma falta de tacho…

Por isso, opina-se. Opina-se sempre. Sempre sobre tudo. Portugal tem economistas sérios, juristas rigorosos, investigadores com décadas de experiência que raramente aparecem em televisão — porque não são suficientemente telegénicos, porque recusam simplificar o que não pode ser simplificado e serem entrevistados por pivôs mal preparados, tendenciosos,….. Entretanto, o comentador polivalente está lá, com uma frase pronta. A agradar a alguns, a ser indiferente para muitos.

O custo não é apenas a qualidade televisiva. O mais importante é que se trata de um custo cívico em que os resultados prejudiciais perduram e multiplicam-se. As ditas fake news…

Uma opinião instantânea distorce a realidade, cria ilusões de compreensão,  empobrece o debate, diminui a democracia e consolida os extremismos.

Quando temas complexos como a reforma do SNS, a crise da habitação ou az Guerras na Ucrânia ou a do Irão, fazemos com que estes casos sejam reduzidos a debates entre dois comentadores que dominam o assunto ao nível de uma leitura rápida de manchetes e uma conta paga no ChatGTP. O espectador fica assim com a sensação de ter percebido algo que, na verdade, não percebeu … talvez porque a abordagem usada não tenha seja a mais correcta.

Não quero também deixar de referir que certos especialistas que parecem estar sempre do lado errado da história. Com este ponto de vista, o meu, não quero fechar a media a outras opiniões…longe disso. Mas o facto de uns poucos, verdadeiros outliers da sociedade,  terem sempre um canal aberto para afirmarem sempre o mesmo, do  mesmo modo , com os argumentos de sempre,…e a maioria diz ou pensa o contrário.

O problema não vive apenas nos estúdios de televisão. Reconhecemo-lo bem no mundo do trabalho. Em quase todas as organizações existe aquela figura familiar: o colega — ou o chefe — que tem sempre uma opinião formada sobre tudo (saravá  Raúl Seixas), seja sobre a estratégia da empresa, o sistema de RH, a campanha de marketing ou o novo software de contabilidade. Intervém em todas as reuniões, domina todos os dossiês, nunca hesita. A sua presença é constante; a sua utilidade, bem mais discutível.

Este perfil “sui generis” é particularmente perigoso em posições de liderança, porque cada intervenção tem peso e pode orientar — mas também distorcer — o trabalho e a estratégia de equipas inteiras.

Quem sente que o seu superior vai sempre ter uma opinião formada sobre o seu trabalho aprende, rapidamente, a gerir expectativas em vez de procurar a melhor solução. O resultado é uma cultura de aparências, onde o que importa não é fazer bem, mas parecer bem aos olhos de quem opina sobre tudo.

Um dado curioso é que muitos destes 'especialistas' constroem a sua reputação não sobre o que sabem, mas sobre como parecem saber. Absorvem manchetes, reciclam análises alheias e, com o dom da oratória — e uma expressão facial devidamente grave —, transformam a reprodução em originalidade. É uma forma de prestidigitação intelectual: o truque não está no conteúdo, está na entrega. E o público, muitas vezes, aplaude o ilusionista sem reparar que não havia nenhum coelho na cartola."

Importa reforçar que ao ouvir estes especialistas a expor as suas ideias, somos todos nós que ouvimos, somos todos nós que podemos ser influenciados.  Estes especialistas têm palco livre nas televisões, a qualquer hora do dia. E, muitas vezes, são acompanhados pelos dignos pivôs das televisões.

Wittgenstein escreveu: “sobre aquilo que não se pode (ou sabe)  falar, calemo-nos.”

É, talvez, uma máxima que os media portugueses parecem desconhecer por completo. Talvez o melhor comentário que um comentador poderia fazer, ao vivo, em horário nobre, fosse este: «Sobre isto, não sei. Perguntem a alguém que saiba.»

Seria, provavelmente, o momento mais honesto — e mais útil — da história dos media portugueses.

 

Raúl Seixas – Metamorfose Ambulante , Raul Seixas foi uma figura absolutamente central no rock brasileiro. Não foi apenas um cantor de rock — foi quem ajudou a dar identidade brasileira ao género. Antes dele, muito do rock no Brasil era basicamente imitação do que vinha dos EUA ou do Reino Unido.

 

Texto inspirado no desconforto que os media e políticos portugueses transmitem à sua audiência e ao povo


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