
Desnortes por Tarsila do Amaral
"Para quem ignora que porto procura, nenhum vento lhe é próprio." Séneca
Estava em 2008 e
publiquei este texto no meu blog. Trabalhava numa gráfica, simultaneamente
estava a procurar um novo desafio
Desnortes (prosa de 2008)
A terra do desnorte.
Parece-me ser um pouco do que passa neste nosso país.
Vejo isso todos os dias, em clientes, em reuniões, em conversas que começam
cheias de energia e acabam sem decisão nenhuma.
Lembro-me de um pequeno diálogo da Alice no País das
Maravilhas:
- Alice:
Pode dizer-me, por favor, que caminho devo apanhar?
- Gato:
Depende de para onde quer ir.
- Alice:
Não me importa muito para onde…
- Gato:
Então não importa o caminho que escolha.
Parece que é assim que “desandamos”. Mas o pior é que alguns
nem caminho querem já. Nem para si, nem que alguém lhes escolha um.
Desnortes com IA (versão de 2026)
A terra do desnorte tem já internet de alta velocidade.
Vejo isso todos os dias. Empresas e empresários falam da IA
como se fosse uma varinha mágica, sem saber bem o que querem fazer com ela.
Pessoas que experimentam o ChatGPT uma vez, ficam
impressionadas, e ficam por aí.
Gestores que pedem relatórios sobre "como implementar
IA na empresa" sem terem ainda decidido o que a empresa quer ser.
Lembro-me sempre daquele diálogo entre a Alice e o Gato (que
reproduzo acima).
O Gato tinha razão, claro. Se não sabes para onde queres ir,
qualquer ferramenta te serve. E nenhuma te chega.
O problema com a IA já não é a tecnologia. A tecnologia já
cá está cá e funciona. Já faz coisas que há dois anos pareciam ficção
científica. O problema é que a maioria das pessoas e das organizações ainda
está na fase da Alice: não importa muito para onde. Querem "fazer qualquer
coisa com IA" sem saberem porquê, para quem, nem com que resultado.
E então andam. Experimentam ferramentas. Vão a webinars.
Subscrevem newsletters. Assistem a demos. Aplaudem.
E ficam no mesmo sítio.
A IA não resolve o desnorte. Acelera-o.
Road to Nowhere" dos Talking Heads - A letra fala da viagem da vida. O "caminho para lado nenhum" não é necessariamente pessimista. Pelo contrário, Byrne parece sugerir que ninguém sabe exactamente para onde vai. A vida é incerta, e talvez o importante seja aceitar essa incerteza e continuar a caminhar.




