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| Tarsila do Amaral e a estação de comboios |
"A impedimento à acção faz avançar a acção. O que está no caminho torna-se o caminho." Marco Aurélio
Há quem pense ainda que o sucesso — profissional e pessoal — seja algo tão fácil, ou tão difícil, como apanhar um comboio em andamento.
Na minha pré-adolescência (tinha 12 anos) subi várias vezes para o eléctrico 15 com este ainda em marcha. Ia ou vinha do Estádio Nacional, eu e a catraiada toda que tinha jogos de rugby por lá. Era uma aventura simples: esperar o momento certo e saltar. O eléctrico não esperava por ninguém — mas também não andava assim tão depressa.
Fazíamos o mesmo no autocarro 21 ou 25. Só pelo prazer da aventura. Andávamos uma ou duas paragens e saíamos. Claro, os pais não sabiam
Entro agora nas empresas do século passado. Estas acreditavam numa fórmula semelhante. Compram-se máquinas, arranjam-se funcionários — e lá estava, fazendo o que os outros faziam, do mesmo modo, ao mesmo preço de venda (não necessariamente ao mesmo custo de produção).
A nível individual, um curso superior e o domínio razoável do inglês ou de outro idioma — sem ser o brasileirês, o espanholês ou qualquer outro desenrasca — eram o bilhete quase seguro para subir a bordo de uma carreira pofissional.
Apesar das crises do petróleo de 1973, 1979 e 1991 sacudiram as nossas locomotivas. Mas lá recuperámos. O comboio voltava à sua velocidade de cruzeiro (vamos lá ver como esta crise se desenvolve)
Bem, isto tudo era no século passado.
Depois houve uma altura em que o nosso comboio — o europeu, o ocidental — parou. A ascensão da China foi, numa primeira fase, um estímulo: mão-de-obra barata, mercados novos, crescimento partilhado.
Mas a dependência foi crescendo sorrateiramente. Hoje pagamos o preço de ter terceirizado não apenas a produção, mas a resiliência. Também parece que fomos deixando o espírito da inovação para outros…vivíamos tempos de paz.
O comboio parou em 2001, com a Bolha da Internet. Parou de novo em 2008, quando o Lehman Brothers — o quarto maior banco de investimento norte-americano — abriu falência e arrastou consigo o modelo subprime que sustentava a ilusão de prosperidade de meio mundo. E tudo o( vento) mundo levou.
A ressaca não tardou a chegar à Europa sob a forma de crise da dívida soberana. Entre 2010 e 2015, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre viram-se encostados à parede, reféns da troika, da austeridade e de uma factura que não era inteiramente sua, mas que pagaram na íntegra — em empregos perdidos, serviços cortados e uma geração que cresceu a ouvir que não havia dinheiro. Portugal lá sobreviveu. Mas o comboio ficou parado na estação durante anos, com os passageiros a discutir sobre quem lhes tinha dado o bilhete para o comboio a vapor (como dizem os brasileiros, a Maria Fumaça)
E quando a Europa começava a recuperar algum fôlego, chegou o Brexit. Em Junho de 2016, o Reino Unido votou para sair da União Europeia — e abriu uma fissura "manchada" que ia muito além da geografia ou do comércio. Arrependidos? I guess so.
Foi um sinal de que a própria ideia de viagem colectiva estava em causa. Anos de negociações caóticas, três primeiros-ministros desgastados pelo processo, mercados em sobressalto permanente. Mas o comboio europeu não parou desta vez — mas perdeu uma das suas maiores carruagens pelo caminho…quase se pensou que descarrilaria.
Depois tivemos o COVID…uma experiência única, inimaginável. Todos os comboios do mundo pararam ao mesmo tempo. A pandemia de Covid-19 não foi apenas uma crise de saúde pública — foi o momento em que a civilização inteira tocou nos travões. Fronteiras fechadas, economias congeladas, escritórios vazios. Mas o que o vírus também revelou, de forma brutal e acelerada, foi quem estava preparado para continuar a viagem por outros meios. As empresas e as pessoas que tinham investido no digital não pararam — mudaram de via. O teletrabalho, o ensino à distância, o comércio electrónico deixaram de ser alternativas e tornaram-se a norma. O Covid foi, paradoxalmente, o maior curso de transformação digital da história — obrigatório, sem inscrição prévia e com vários e distintos exames feitos diariamente.
Mas hoje — e este hoje começou algures a meio da década passada — vivemos uma verdadeira revolução ferroviária (aqui uma indirecta para a CP). O acesso ao conhecimento está à distância de um pulo de curiosidade. O capital para investimento existe, mas é apátrida. As plataformas que nos permitem aprender, em todas as geografias e muitas vezes sem sair de casa, colocam os carris do conhecimento perto de nós...é só entrar (sei que estou a ser oprimista).
Vale a pena recordar que o crowdfunding não é uma invenção da era digital: data de 1997, quando os Marillion, banda britânica de rock progressivo, financiaram a sua digressão americana com donativos dos próprios fãs. O modelo colaborativo que hoje damos por adquirido tem história. O Linux e a Wikipédia são dos seus monumentos mais visíveis.
O Apito Muda de Tom para Quem Fica no Cais
O efeito Doppler diz exactamente isso: o som sobe de frequência à medida que o comboio se aproxima, e baixa à medida que se afasta. Quem está dentro do comboio ouve sempre o mesmo tom. Quem fica no cais ouve a diferença.
Em breve volto ao Trem Bala que é a IA
Born to Run – Bruce Springsteen. A Columbia Records tinha dado a Springsteen um ultimato — criar um single com potencial para as rádios, ou o contrato acabava. Bruce estava encostado à parede. Foi nesta pressão extrema, com a carreira literalmente em jogo, que nasceu Born to Run. Já não era um jovem talento a lançar-se ao mundo — foi um músico que já tinha falhado duas vezes, que sabia que era a última oportunidade, e que decidiu não fazer um disco seguro mas sim o disco mais ambicioso que conseguia imaginar. Seis meses só na faixa-título.
É uma história de aprendizagem permanente, de quem recusa desistir.



