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| O Sabichão - JPM Consultores |
Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo
“Aprende com
a experiência dos outros, pois não terás tempo suficiente para experimentar
tudo por ti mesmo.", Gengis Khan
Quem foi
criança em Portugal nos anos 60 e 70, que foi o meu caso, conhece bem o Sabichão — era aquele
boneco da Majora, de chapéu cónico e ar de feiticeiro, que girava sobre o
tabuleiro e apontava sempre, infalivelmente, para a resposta certa. Fosse sobre história, geografia ou ciências da
natureza, o Sabichão sabia tudo. Nunca
hesitava. Nunca dizia que não sabia. Mas era um brinquedo. Hoje, curiosamente,
o Sabichão tem vários descendentes bastardos. Eles apresentam-se pelos vários canais
de informação portugueses – televisão, rádio, podcast (para dar um ar que sou moderno),
imprensa, sinais de fumo…
Mas vamos à
televisão, aquele meio mais preguiçoso que temos. É quase certo que encontrará
alguém a falar com uma autoridade Nobel(iana) sobre um tema que, até há três
semanas, provavelmente nem sabia soletrar (desculpem o exagero, mas fica mais
engraçado assim).
Na semana
passada era especialista em geopolítica. Esta semana debruça-se sobre os
mercados financeiros…de repente apareceram uns que também falam sobre a coroa
britânica…já sobre a guerra do Irão ou Ucrânia, temos muitos entendidos
Em qualquer
dos temas, apresentam sempre uma segurança imperturbável. Com ar de quem sabe —
e sempre soube — tudo. De quem tinha nascido para isso. Está-lhe no sangue, no
DNA e nas transfusões de uma qualquer LLM.
Portugal, como
sabemos, tem um mercado televisivo pequeno, com poucos canais. Estes competem vorazmente
pelas audiências e receitas. Este facto criou um ecossistema em que o mesmo
conjunto restrito de rostos roda entre a SIC Notícias, a CNN Portugal, CM e a
TVI 24 como se fossem as únicas pessoas no país capazes de ter uma opinião.
A lógica até é compreensível: precisam de
alguém, sempre disponível, com mundo (supostamente), bem falante (nem sempre), que preencha (o que eu quero mesmo dizer é
encha) os espaços de antena e sem grandes custos. O comentador polivalente
resolve esse problema. E raramente diz que não sabe.
Essa última
parte é a mais reveladora. Numa cultura (a nossa, incluindo a televisiva), que
pune a hesitação e recompensa a convicção, admitir desconhecimento equivale a
suicídio profissional, a um despedimento, a uma falta de tacho…
Por isso,
opina-se. Opina-se sempre. Sempre sobre tudo. Portugal tem economistas sérios,
juristas rigorosos, investigadores com décadas de experiência que raramente
aparecem em televisão — porque não são suficientemente telegénicos, porque
recusam simplificar o que não pode ser simplificado e serem entrevistados por pivôs
mal preparados, tendenciosos,….. Entretanto, o comentador polivalente está lá,
com uma frase pronta. A agradar a alguns, a ser indiferente para muitos.
O custo não
é apenas a qualidade televisiva. O mais importante é que se trata de um custo cívico
em que os resultados prejudiciais perduram e multiplicam-se. As ditas fake news…
Uma opinião
instantânea distorce a realidade, cria ilusões de compreensão, empobrece o debate, diminui a democracia e
consolida os extremismos.
Quando temas
complexos como a reforma do SNS, a crise da habitação ou az Guerras na Ucrânia
ou a do Irão, fazemos com que estes casos sejam reduzidos a debates entre dois
comentadores que dominam o assunto ao nível de uma leitura rápida de manchetes
e uma conta paga no ChatGTP. O espectador fica assim com a sensação de ter
percebido algo que, na verdade, não percebeu … talvez porque a abordagem usada
não tenha seja a mais correcta.
Não quero
também deixar de referir que certos especialistas que parecem estar sempre do
lado errado da história. Com este ponto de vista, o meu, não quero fechar a
media a outras opiniões…longe disso. Mas o facto de uns poucos, verdadeiros
outliers da sociedade, terem sempre um
canal aberto para afirmarem sempre o mesmo, do
mesmo modo , com os argumentos de sempre,…e a maioria diz ou pensa o
contrário.
O problema
não vive apenas nos estúdios de televisão. Reconhecemo-lo bem no mundo do
trabalho. Em quase todas as organizações existe aquela figura familiar: o
colega — ou o chefe — que tem sempre uma opinião formada sobre tudo (saravá Raúl Seixas), seja sobre a estratégia da
empresa, o sistema de RH, a campanha de marketing ou o novo software de
contabilidade. Intervém em todas as reuniões, domina todos os dossiês, nunca
hesita. A sua presença é constante; a sua utilidade, bem mais discutível.
Este perfil “sui
generis” é particularmente perigoso em posições de liderança, porque cada
intervenção tem peso e pode orientar — mas também distorcer — o trabalho e a
estratégia de equipas inteiras.
Quem sente
que o seu superior vai sempre ter uma opinião formada sobre o seu trabalho
aprende, rapidamente, a gerir expectativas em vez de procurar a melhor solução.
O resultado é uma cultura de aparências, onde o que importa não é fazer bem,
mas parecer bem aos olhos de quem opina sobre tudo.
Um dado
curioso é que muitos destes 'especialistas' constroem a sua reputação não sobre
o que sabem, mas sobre como parecem saber. Absorvem manchetes, reciclam
análises alheias e, com o dom da oratória — e uma expressão facial devidamente
grave —, transformam a reprodução em originalidade. É uma forma de
prestidigitação intelectual: o truque não está no conteúdo, está na entrega. E
o público, muitas vezes, aplaude o ilusionista sem reparar que não havia nenhum
coelho na cartola."
Importa
reforçar que ao ouvir estes especialistas a expor as suas ideias, somos todos
nós que ouvimos, somos todos nós que podemos ser influenciados. Estes especialistas têm palco livre nas
televisões, a qualquer hora do dia. E, muitas vezes, são acompanhados pelos
dignos pivôs das televisões.
Wittgenstein
escreveu: “sobre aquilo que não se pode (ou sabe) falar, calemo-nos.”
É, talvez, uma
máxima que os media portugueses parecem desconhecer por completo. Talvez o
melhor comentário que um comentador poderia fazer, ao vivo, em horário nobre,
fosse este: «Sobre isto, não sei. Perguntem a alguém que saiba.»
Seria,
provavelmente, o momento mais honesto — e mais útil — da história dos media
portugueses.
Raúl Seixas –
Metamorfose Ambulante , Raul Seixas foi uma figura absolutamente central no
rock brasileiro. Não foi apenas um cantor de rock — foi quem ajudou a dar
identidade brasileira ao género. Antes dele, muito do rock no Brasil era
basicamente imitação do que vinha dos EUA ou do Reino Unido.
Texto
inspirado no desconforto que os media e políticos portugueses transmitem à sua
audiência e ao povo
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