quinta-feira, 21 de maio de 2026

Assim nunca irás comer Tofu


Tofu pela fogão de Tarsila do Amaral 

 Assim nunca irás comer Tofu

“Se tens medo , não o faças. Se já o estás a fazer, não tenhas medo” Gengis Khan

Começo por fazer um disclaimer. Eu como Tofu. Não faz parte da minha dieta regular. Mas gosto.

A ideia veio do Ivo Bernardo, que ouvi numa talk do jornal ECO sobre e-commerce. Ele vai desculpar-me, espero, estar a "fanar" esta ideia dele  (uso fanar porque aquele grupo de activistas, o Climáximo, quando rouba de um supermercado, a Lusa escreve retirar).

Isto do Tofu vem a propósito dos novos tempos da hipermegasuperlativa e exacta e excessiva personalização. Tudo feito à medida para nós. O Spotify sabe o que gostamos de ouvir. A Netflix sabe o que gostamos de ver. O Instagram sabe o que gostamos de ver sem admitir que gostamos de ver. E assim sucessivamente, tudo numa cadeia infinita de plataformas que nos conhecem melhor do que a nossa mãe.

E assim vamos pautando a nossa vida. As decisões a serem tomadas por terceiros que são, espantosamente, bits e bytes. Não há julgamento, como não há agenda. Há apenas um número incompreensível de cálculos que chegam, invariavelmente, à mesma conclusão. O tão português: dá-lhe mais do mesmo.

O engraçado é que, no meio de tanta oferta, só nos oferecem o mesmo. É quase como ir a um restaurante que não conhecemos. Se não arriscamos, pedimos o bitoque com batatas fritas e ovo. Não existe o risco de se espalharem. E se isso acontecer, não sai caro.

É o paradoxo perfeito da nossa era. Nunca houve tanta música disponível (veja-se a cauda longa)  e, no entanto, o Spotify vai recomendar-te uma variação do que ouviste na semana passada. Nunca houve tantos filmes, e a Netflix vai sugerir mais um thriller porque viste três em Janeiro quando estavas constipado e sem energia para pensar (eu gosto de me refugiar nas coboiadas). O supermercado tem quatrocentos iogurtes. Todos de morango (eu gosto de iogurte de morango.)

O problema não é a personalização em si. É o que ela assume e o que faz por nós. Ela pensa que o que somos hoje é igual ao que fomos ontem. Aqui lembro-me da primeira vez que fui a um japonês. O Pedro Blanco foi o responsável. O coitado teve de almoçar duas vezes. A primeira porque me refugiei nos tempuras, e a segunda porque descobri os sashimis e os sushis e, claro, o Saquê (saravá Pedro).

O Big Brother que é a hiperpersonalização pensa que as nossas preferências são uma linha recta, previsível, sem desvios ou contradições. Que nunca nos apetece passar dos caracóis para as ameijoas. O que foi exactamente o  que nos apeteceu na véspera, e que é bem possível que aconteça neste período de primavera e verão.

O algoritmo não descobre quem tu és. Confirma o que já foste. Trabalha com o teu histórico, não com as tuas ideias e com todo o teu potencial.

E é o teu potencial que fica à espera numa qualquer paragem, porque o sistema nunca te vai alargar os horizontes para além do que está definido pelas máquinas.

É assim que o Tofu e os Tofus desaparecem da tua vida. Não porque não gostes. É que nunca clicaste. E se nunca clicaste, para o algoritmo, o Tofu simplesmente não existe. Está lá, algures na imensidão da oferta disponível, perfeitamente acessível e completamente invisível.

Das melhores coisas que nos podem acontecer estão também aquelas que não nos foram recomendadas por ninguém. Foram erros de percurso, entradas por engano, conversas que não devíamos ter tido, pessoas que se cruzaram contigo, livros apanhados ao acaso numa prateleira. Nenhum sistema de recomendação do mundo teria sugerido esse itinerário ou comportamento. Nenhum sistema do mundo de oferece a sorte e o acaso.

Lembro-me, por exemplo, de um espectáculo que vi no Circo Voador no Rio de Janeiro. Uma banda sem muitos créditos, pelo menos pelo Rio.  Fazia música com bateria, guitarra e saxofone, quase como os Morphine, e as letras eram construídas sobre textos de literatura de cordel. Foi fabuloso…e não foi a Brahma a curtir.

Não, não estou a propor que desliguemos tudo. A personalização tem muito valor.

Mas a personalização é como os disparates: ambos são precisos. Temos de ir fazendo disparates, como também temos de fazer exactamente o que o algoritmo não espera. Clicar no que tem zero estrelas de compatibilidade. Entrar no restaurante sem ler as críticas. Ouvir o disco que ninguém recomendou.

Ou mesmo experimentar o Tofu.

Não é mau. Juro que não é mau.

Morphine - Honey White , A Morphine foi uma das bandas mais singulares dos anos 90. Surgida em Boston, misturava rock alternativo, jazz, blues e um certo ambiente “noir” urbano, criando um som hipnótico e minimalista. Escuro, sensual e elegante , tudo ao mesmo tempo.

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