domingo, 15 de março de 2026

Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo

 

O Sabichão - JPM Consultores  

Os Sabichões ou o País dos Sabe-Tudo

                               “Aprende com a experiência dos outros, pois não terás tempo suficiente para experimentar tudo por ti mesmo.", Gengis Khan

Quem foi criança em Portugal nos anos 60 e 70, que  foi o meu caso, conhece bem o Sabichão — era aquele boneco da Majora, de chapéu cónico e ar de feiticeiro, que girava sobre o tabuleiro e apontava sempre, infalivelmente, para a resposta certa.  Fosse sobre história, geografia ou ciências da natureza, o Sabichão sabia tudo.  Nunca hesitava. Nunca dizia que não sabia. Mas era um brinquedo. Hoje, curiosamente, o Sabichão tem vários descendentes bastardos. Eles apresentam-se pelos vários canais de informação portugueses – televisão, rádio, podcast (para dar um ar que sou moderno),  imprensa, sinais de fumo…

Mas vamos à televisão, aquele meio mais preguiçoso que temos. É quase certo que encontrará alguém a falar com uma autoridade Nobel(iana) sobre um tema que, até há três semanas, provavelmente nem sabia soletrar (desculpem o exagero, mas fica mais engraçado assim).

Na semana passada era especialista em geopolítica. Esta semana debruça-se sobre os mercados financeiros…de repente apareceram uns que também falam sobre a coroa britânica…já sobre a guerra do Irão ou Ucrânia, temos muitos entendidos

Em qualquer dos temas, apresentam sempre uma segurança imperturbável. Com ar de quem sabe — e sempre soube — tudo. De quem tinha nascido para isso. Está-lhe no sangue, no DNA e nas transfusões de uma qualquer LLM.

Portugal, como sabemos, tem um mercado televisivo pequeno, com poucos canais. Estes competem vorazmente pelas audiências e receitas. Este facto criou um ecossistema em que o mesmo conjunto restrito de rostos roda entre a SIC Notícias, a CNN Portugal, CM e a TVI 24 como se fossem as únicas pessoas no país capazes de ter uma opinião.

 A lógica até é compreensível: precisam de alguém, sempre disponível, com mundo (supostamente), bem falante (nem sempre),  que preencha (o que eu quero mesmo dizer é encha) os espaços de antena e sem grandes custos. O comentador polivalente resolve esse problema. E raramente diz que não sabe.

Essa última parte é a mais reveladora. Numa cultura (a nossa, incluindo a televisiva), que pune a hesitação e recompensa a convicção, admitir desconhecimento equivale a suicídio profissional, a um despedimento, a uma falta de tacho…

Por isso, opina-se. Opina-se sempre. Sempre sobre tudo. Portugal tem economistas sérios, juristas rigorosos, investigadores com décadas de experiência que raramente aparecem em televisão — porque não são suficientemente telegénicos, porque recusam simplificar o que não pode ser simplificado e serem entrevistados por pivôs mal preparados, tendenciosos,….. Entretanto, o comentador polivalente está lá, com uma frase pronta. A agradar a alguns, a ser indiferente para muitos.

O custo não é apenas a qualidade televisiva. O mais importante é que se trata de um custo cívico em que os resultados prejudiciais perduram e multiplicam-se. As ditas fake news…

Uma opinião instantânea distorce a realidade, cria ilusões de compreensão,  empobrece o debate, diminui a democracia e consolida os extremismos.

Quando temas complexos como a reforma do SNS, a crise da habitação ou az Guerras na Ucrânia ou a do Irão, fazemos com que estes casos sejam reduzidos a debates entre dois comentadores que dominam o assunto ao nível de uma leitura rápida de manchetes e uma conta paga no ChatGTP. O espectador fica assim com a sensação de ter percebido algo que, na verdade, não percebeu … talvez porque a abordagem usada não tenha seja a mais correcta.

Não quero também deixar de referir que certos especialistas que parecem estar sempre do lado errado da história. Com este ponto de vista, o meu, não quero fechar a media a outras opiniões…longe disso. Mas o facto de uns poucos, verdadeiros outliers da sociedade,  terem sempre um canal aberto para afirmarem sempre o mesmo, do  mesmo modo , com os argumentos de sempre,…e a maioria diz ou pensa o contrário.

O problema não vive apenas nos estúdios de televisão. Reconhecemo-lo bem no mundo do trabalho. Em quase todas as organizações existe aquela figura familiar: o colega — ou o chefe — que tem sempre uma opinião formada sobre tudo (saravá  Raúl Seixas), seja sobre a estratégia da empresa, o sistema de RH, a campanha de marketing ou o novo software de contabilidade. Intervém em todas as reuniões, domina todos os dossiês, nunca hesita. A sua presença é constante; a sua utilidade, bem mais discutível.

Este perfil “sui generis” é particularmente perigoso em posições de liderança, porque cada intervenção tem peso e pode orientar — mas também distorcer — o trabalho e a estratégia de equipas inteiras.

Quem sente que o seu superior vai sempre ter uma opinião formada sobre o seu trabalho aprende, rapidamente, a gerir expectativas em vez de procurar a melhor solução. O resultado é uma cultura de aparências, onde o que importa não é fazer bem, mas parecer bem aos olhos de quem opina sobre tudo.

Um dado curioso é que muitos destes 'especialistas' constroem a sua reputação não sobre o que sabem, mas sobre como parecem saber. Absorvem manchetes, reciclam análises alheias e, com o dom da oratória — e uma expressão facial devidamente grave —, transformam a reprodução em originalidade. É uma forma de prestidigitação intelectual: o truque não está no conteúdo, está na entrega. E o público, muitas vezes, aplaude o ilusionista sem reparar que não havia nenhum coelho na cartola."

Importa reforçar que ao ouvir estes especialistas a expor as suas ideias, somos todos nós que ouvimos, somos todos nós que podemos ser influenciados.  Estes especialistas têm palco livre nas televisões, a qualquer hora do dia. E, muitas vezes, são acompanhados pelos dignos pivôs das televisões.

Wittgenstein escreveu: “sobre aquilo que não se pode (ou sabe)  falar, calemo-nos.”

É, talvez, uma máxima que os media portugueses parecem desconhecer por completo. Talvez o melhor comentário que um comentador poderia fazer, ao vivo, em horário nobre, fosse este: «Sobre isto, não sei. Perguntem a alguém que saiba.»

Seria, provavelmente, o momento mais honesto — e mais útil — da história dos media portugueses.

 

Raúl Seixas – Metamorfose Ambulante , Raul Seixas foi uma figura absolutamente central no rock brasileiro. Não foi apenas um cantor de rock — foi quem ajudou a dar identidade brasileira ao género. Antes dele, muito do rock no Brasil era basicamente imitação do que vinha dos EUA ou do Reino Unido.

 

Texto inspirado no desconforto que os media e políticos portugueses transmitem à sua audiência e ao povo


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